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ESTÉTICA I: ANÁLISE DE MODELOS ARQUETÍPICOS

Jung num fundo romantista para ilustrar a união mitologica dos arquétipos e da estética

INTRODUÇÃO

Quando me deparei pela primeira vez com o trabalho de Jung, eu não tinha a mínima ideia de que o resultado seria esse haha. A verdade é que eu sempre fui fascinado pelo estudo das personalidades, fiz parte do nicho maluco dos MBTI e logo descobri o trabalho de Jordan Peterson sobre o Big Five, onde também acabei conhecendo o trabalho de Jung e sua Psicologia Analítica.


Seria, no entanto, somente mais tarde, depois que comecei a estudar história do design, que a noção de Arquétipos começaria a martelar minha cabeça, o primeiro resultado disso deu vida ao Cosmentário sobre Styling e à criação da sociedade de consumo. Que você pode ver aqui.


Mas antes disso, eu falharia por 2 anos dedicando meus esforços a um TCC mal escrito que ficou incompleto. De fato, nesse primeiro episódio do Cosmentário, não há nenhuma referência ao conceito de Arquétipo ou Jung, mas foi essa descoberta, sobre a forma da gota e do design voltado ao poder aquisitivo de cada classe, o que tem sustentado minha busca pela ideia de um modelo capaz de convergir e influenciar o comportamento de grupos sociais.


Enfim, o trabalho de Jung facilitou bastante todo esse processo conceitual e ele é realmente a minha base pra tudo isso, mas não posso omitir o fato de que Hegel tem me ajudado bastante na questão da observação fenomenológica, antes essa parte era dedicada à semiótica, só que o trabalho de Hegel é, na minha visão, muito melhor em explicar o problema da história de uma forma mais geral.


Então, o que se segue agora é a minha tentativa de convergir essas duas teorias em uma noção de estética, que seja capaz de penetrar no sentido ontológico das coisas, saindo dessa ideia mais superficial de cores, tipografias e hierarquia. Onde espero poder transcender a noção moderna dos ornamentos, que o design abandonou e nunca recuperou propriamente desde o funcionalismo.


QUAL É A ORIGEM DOS SÍMBOLOS ARQUÉTIPOS?

Ao buscar entender como se dá a formação de um Arquétipo no imaginário humano, é preciso antes deixar nítido que isso não se trata de uma ideia sem razão, mas que é na realidade um fato empírico e, por assim dizer, material.


Bom, quando se trata da psique humana, podemos, inicialmente, de forma elementar, separá-la em duas instâncias que atuam juntas: o Consciente e o Inconsciente. Não vou me prender aqui a uma explicação exagerada desses dois elementos, basta saber que tudo o que surge na mente vem do inconsciente e tudo o que percebemos está na consciência e em termos conscientes. Quando olhamos para fora, estamos na realidade olhando para a própria consciência, uma que está refletida no mundo.


Sendo assim, acredito que seja fácil chegar à conclusão de que a psicologia humana integra certos fatores biológicos em suas análises, condicionando nossa psique ao seu caráter comportamental, o que dá aos pensamentos sua reação motora. Jung atribui o Instinto como o fator determinante de impulso para essa reação.


Os instintos são entretanto fatores impessoais, universalmente difundidos e hereditários, de caráter mobilizador, que muitas vezes se encontram tão afastados do limar da consciência, que a moderna psicoterapia se vê diante da tarefa de ajudar o paciente a tomar conscência dos mesmos (p. 54 - Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo)

Seu papel é tão importante para o funcionamento da psique, que para ele os arquétipos são imagens inconscientes dos próprios instintos. Sendo essa a razão pela qual vemos o reaparecimento de certos comportamentos em, por exemplo, animais que nunca viram seus pais. Hoje, no entanto, já é senso comum que o DNA carrega esse tipo de coisa, mas Jung chamou essa ocorrência de “plasma germinal”.


Esse é um ponto importante, não só pelo fato de explicar o motivo pelo qual agimos como agimos em certas situações e não como queríamos de fato agir. São os instintos, exercendo sua força antes mesmo que o pensamento surja na consciência.


Mas também, pelo fato de que é aqui que começamos a separar o inconsciente entre pessoal e coletivo. Da mesma maneira, não pretendo me prolongar no que diz respeito à parte pessoal do inconsciente, apenas pretendo deixar explícito que ele é realmente pessoal, cada um tem suas próprias memórias e experiências vividas. Contudo, é no inconsciente coletivo que o fator empírico dos arquétipos poderá ser testado, pois seu conteúdo está condicionado pela hereditariedade, nele não há elementos reprimidos ou esquecidos, então, se o DNA é a matéria onde esse conteúdo foi gerado e guardado, é no inconsciente coletivo onde ele encontra um local propício para se desenvolver e chegar à consciência.


O problema disso é que não podemos dizer que é assim porque deve ser assim, definitivamente não desta forma, mas vou dar meu melhor aqui para fazer entender o que ocorre nesse tipo de situação, algo que certamente vai facilitar o meu trabalho mais pra frente nesse texto.


BREVE RESOLUSÃO METAFÍSICA SOBRE O INCONSCIENTE COLETIVO

Vamos lá então, para aqueles que não estão satisfeitos com as explicações dadas acima e pretendem de alguma forma refutar a ideia de que existe um suposto inconsciente coletivo, onde os instintos se desenvolvem e moldam nossa forma de agir, ver, falar, ouvir e ser, deixe-me dizer. O centro da questão que encontramos aqui, está na universalidade do conceito, precisamente no momento em que ela se manifesta na mente humana, como eu havia dito, a natureza está refletida na consciência, daí vem a necessidade de encontrar um significado para o instinto, enquanto isso, o instinto é apenas necessidade pura e sem significado, como por exemplo o instinto materno onde a mãe enfrenta a morte de frente pelo filho, todas as respostas para esse problema estão em termos conscientes, o instinto em outras palavras é abstrato em si, o que a noção de um inconsciente coletivo faz é traze-lo para si, colocando sua imgem no lado racional da nossa mente. Bom, e é aqui que encerro minha tentativa, mais do que isso seria demais e logo por força maior começaria a delirar sobre o verdadeiro sentido da vida. E já saímos muito da linha de raciocínio...


Tendo visto que a ideia de Inconsciente Coletivo é de fato um conceito universal, podemos começar a tratar sobre suas implicações na noção junguiana de arquétipo. Então, quando se trata da análise de modelos arquetípicos, precisamos passar a considerar suas imagens, pois é justamente o que disse: se trata de um reflexo do inconsciente que aparece na consciência.


Deve trata-se de formas de função as quais denominamos “imagens”. “imagens” expressam não só a forma da atividade a ser excercida, mas também, simultaneamente, a situação típica na qual se desencadeia a atividade. (p. 90 - Os arquétipos e o inconsciente coletivo)

Jung entendia muito bem esse teor da mente humana, definindo como Imagem Primordial a substância que é capaz de produzir sobre o arquétipo uma estrutura metafórica dando a ele suas qualidades linguísticas para comunicação. Desta forma, quando nos referimos a um arquétipo, geralmente o que estamos fazendo, na realidade, é nos referir a uma Imagem Arquetípica, mas esta não deve de nenhuma forma ser confundida com a primordial, uma vez que ela diz respeito à sua origem, enquanto a Imagem Arquétipica seria o conceito completamente formado.


O QUE É UM ARQUÉTIPO?

De forma bem direta pode-se entender o Arquétipo como uma estrutura universal de formação de padrão, uma facultas praeformandi, isto é, uma “capacidade de pré-formar”, tendo o arquétipo em si, uma significação negativa, um não ser em si. Ele é apenas estrutura que dá forma, uma fonte essente de conteúdos, estando positivo apenas como mediador do processo. Jung compara a formação do arquétipo ao sistema axial de um cristal.


Sua forma, por outro lado, como já expliquei antes, poderia ser comparada ao sistema axial de um cristal, que pré-forma, de certo modo, sua estrutura no líquido-mãe, apesar de ele próprio não possuir uma existência material. Esta última só aparece através da maneira específica pela quai os ions e depois as moléculas se agregam. (p. 91 - Os arquétipos e o inconsciente coletivo)

Mas eu acho que esse exemplo não é realmente muito feliz em fazer entender o que de fato é essa qualidade do arquétipo. De qualquer forma, o arquétipo é inconsciente e, como disse, tem origem no instinto, não podendo ser entendido em seu interior, pois está em constante mudança, apenas podemos traçar sua origem. Em termos hegelianos podemos dizer que ele aparece como verdade simples ou geral.


Vou exemplificar para ser mais direto e deixar as coisas bem separadas. Voltemos à mãe que enfrenta a morte pelo filho, ela enquanto uma mãe é um arquétipo, tem origem na sua qualidade protetora, isto é, sua imagem primordial, mas só esta completa enquanto a “mãe que enfrenta a morte pelo filho”, essa é sua imagem arquétipica. Quando Jung tenta dizer que um arquétipo está presente em todo tempo e em todo lugar como uma representação coletiva, é essa abstração que ele está fazendo, todos temos uma ideia mais ou menos do que é uma mãe, o que muda é a forma estática desse constante movimento. Vejamos brevemente alguns exemplos do arquétipo manterno para entender melhor essa questão.


Menciono apenas algumas das formas mais características: a própia mãe e a avó; a madastra e a sogra; uma mulher qualquer com a qual nos relacionamos, bem como a ama-de-leite ou ama-seca, a antepassada e a mulher branca; no sentido de tranferencia elevada, a deusa, especialmente a mãe de Deus, a Virgem (enquanto mãe rejuvenescida, por exemplo Demeter e Core), Sofia (enquanto mãe que é também a amada, eventualmente também o tipo Cibele-Átis, ou enquanto filha-amada (mãe rejuvenescida); a meta da nostalgia da salvação (Paraíso, Reino de Deus, Jerusalém Celeste); em sentido mais amplo, a Igreja, a Universidade, a cidade ou país, o Céu, a Terra a Lua […] (p. 92 - Os arquétipos e o inconsciente coletivo)

Deixando bem explícito que esses arquétipos são motivos mitológicos e podem tanto ter um sentido positivo e favorável quanto negativo e nefasto, o contexto da imagem é geralmente o que dá essa conotação, embora, acredito eu, essa não seja a questão aqui, acho pertinente explicar isso.


Sendo assim, podemos ver que o arquétipo de fato tem raízes sociais e culturais, não sendo um problema de caráter pessoal de cada indivíduo, sua formação é encontrada no "plasma geminal" da coletividade humana, se é que podemos dizer assim hahaha.


Esse é o ponto principal da ideia de Arquétipo, ele é uma potencialidade pura, uma construção da sociedade, que só pode se tornar real de fato quando se estiliza no momento histórico. O que estou dizendo é que o arquétipo é uma obra de cooperação social, nenhum indivíduo tem o poder de decidir qual deles terá “sucesso”, podemos apenas apontar o caminho, manipulando o sensível para que ele se propague entre os demais, no entanto, sempre havera uma pre disposição para sua capacidade de influencia, por isso coisas como um público alvo ou conhecimento de nicho são importantes, mas sobre isso trataremos depois.


COMO ANALISAR UMA IMAGEM ARQUETÍPICA?

Para concluir essa primeira parte do texto sobre estética, o que pretendo fazer é demonstrar como esse processo se dá na realidade. Essa é, no entanto, apenas uma forma de destacar o papel histórico dos arquétipos e também de comprovar a universalidade deles.


Bom, como esse tipo de coisa exige um estudo minucioso de comparação e de interpretação histórica, vou usar a questão do Styling novamente, até porque no Cosmentário que fiz sobre isso acabei não elaborando esse tipo de questão. Então, fica aqui meu disclaimer para você assisti-lo, caso queira entender melhor o contexto político e econômico desse momento histórico. Aqui vou abordar apenas sua parte estética e coletiva ou social, né.


Visto que as tratativas já foram eliminadas, deixe-me começar a apresentar um contexto geral do que estava acontecendo nos EUA durante o recorte que vamos analisar. Então, devido ao forte sucesso do modelo fordista em vender carros para consumo de todos, surgia um problema grave de demanda, isso porque esse mesmo modelo saturou o mercado com carros, então se todos tinham um modelo T em boas condições de uso, não havia motivos para trocar de carro. O tal pulo do gato foi quando a General Motors começou a introduzir carros divididos por estilo, onde o chassi era geralmente a única coisa que mudava, enquanto o motor, antes fundamental para o lançamento de um carro novo, passou a ter papel secundário.



Aqui, devemos começar por observar antes a relação do homem com o animal cavalo, pois diferente do carro, ele é um ser vivo e não uma máquina. Quando a modernidade atinge o espírito humano, há uma supressão em vários aspectos da possibilidade de uma conexão espiritual, fazendo com que a natureza desempenhe um papel secundário no imaginário, mas no momento não posso me aprofundar nisso, me falta estudo, apenas vou dizer que esse fato já foi constatado por Weber através do “desencantamento do mundo”, termo que é muito feliz em resumir essa questão até aqui.


No entanto, através dessa ideia conseguimos acessar a imagem primordial do Arquétipo do carro, isto é, o cavalo, de maneira mais precisa, podemos encontrar sua essência no motor, já que é nele que o termo “cavalos de potência” reside. Não é difícil perceber essa relação em outros aspectos também, como na famosa frase de Henry Ford: Se eu tivesse perguntado às pessoas o que elas queriam, teriam dito 'cavalos mais velozes'. O carro tem essa ligação com o velho animal e companheiro de trabalho, ele serve como um mediador, atribuindo significado à máquina desconhecida, mas até a ruptura propiciada pela General Motors, ele não passava de uma carruagem que se move “sozinha”.



Quando o Styling surge como ferramenta de design focado na venda, principalmente no marketing, esse conteúdo espiritual suprimido é recuperado, porém sob uma nova forma. Mesmo assim, a necessidade espiritual havia sido sanada, já que o carro agora poderia ter de fato seu lugar no imaginário humano.


Esse conteúdo espiritual pode ser observado através do Streamline ou da forma da gota, uma imagem arquetípica proeminente na época, inspirada na aerodinâmica dos aviões e numa noção mais orgânica de modernidade tecnológica. Com ela, o carro, que antes era quase uma carruagem de metal, passou a refletir a união perfeita entre natureza e máquina, permitindo, com a variação constante de chassis, que as aspirações humanas fossem novamente atendidas. Mais do que isso, a GM ainda dividia seus carros por classe social, então da mesma forma que um cavalo poderia ser de raça pura ou não, o carro poderia ser para Classe A ou B, não era mais sobre uma força mecanizada do cavalo, mas sobre seu reflexo no comprador, que ao comprar um Cadillac, por exemplo, acabava satisfazendo seus instintos por estilo e por distinção social.



Não pretendo me prolongar sobre essas coisas, pois elas já foram explicadas muito bem no Cosmentário sobre Styling, o importante aqui é notar como o conteúdo muda e a forma do arquétipo não.


O cavalo era um reflexo natural da necessidade de representar essa força inconsciente que aparecia sobre a forma do carro, tínhamos que aprender a domá-lo da mesma maneira que nossos antepassados fizeram com os cavalos muito tempo atrás. Quando a forma orgânica do Streamline aparece, o arquétipo do carro consegue estabelecer propriamente sua conexão mitológica com a psique inconsciente, criando suas próprias imagens na consciência do indivíduo, que passa a buscar-lo como resposta, seja qual for o motivo. Há modelos de chassi para todos os gostos, ou melhor, para todas as classes sociais.


É claro que esse motivo não se aplica a todos os contextos de mecanização do trabalho, o que estou analisando é apenas a questão do carro em especifico, mas poderiamos pegar, por exemplo, a questão do fogo com a luz eletrica, o espelho ou reflexo com o perfil da rede social, a virilidade masculina com personagens como Hercules, Perceu e Sansão, ou no caso feminino, a imagem de Atena, Cleoprata e Maria para observarar a sabedoria, sedução, e proteção. No caso de Atena existe ainda uma ligação histórica com a imagem de Maria, o que pode revelar coisas interessantes.


Enfim, acredito que chegamos a uma conclusão boa até aqui, embora eu não me dê por satisfeito com esse texto, temos um pontapé inicial para um estudo estético mais profundo do mundo. Bom, espero que tenha contribuído nem que só um pouco para seus estudos.


Vejo você por aí, WebRunner…

Lewlzin ⚑


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